CBMERJ registra escalada de incêndios com baterias de lítio entre 2024 e 2026; bicicletas e patinetes elétricos dominam

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Equipe CarangoEV - Redação

Das cerca de 80 ocorrências entre 2024 e o 1º trimestre de 2026, motos, patinetes e bicicletas elétricas dominam o quadro; 42% foram em residências, com pico entre meia-noite e 6h. O CBMERJ não registrava incêndio de carro elétrico no estado até agosto de 2025 — a leitura de “carro elétrico pegando fogo na garagem” é da imprensa, não do estudo.

O Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Rio de Janeiro divulgou em maio de 2026 um levantamento inédito sobre incêndios envolvendo baterias de íons de lítio. Os números mostram crescimento ano a ano: 30 ocorrências em 2024, 33 em 2025 e 18 só no primeiro trimestre de 2026. O estudo aponta a maior concentração desses incêndios em ambientes residenciais e no período da madrugada. Mas há um detalhe que a maior parte da cobertura jornalística apagou: o levantamento não trata, em momento nenhum, de carro elétrico. Trata de micromobilidade.

A composição das ocorrências é o dado que organiza tudo o que vem depois. Das cerca de 80 ocorrências mapeadas no período, 36 envolvem motocicletas, ciclomotores e autopropelidos elétricos (equipamentos elétricos de mobilidade individual, como patinetes e monociclos), e outras 25 envolvem bicicletas elétricas. Carro elétrico não aparece quantificado. O documento do CBMERJ trata genericamente de “veículos e dispositivos eletrificados”, e o que sustenta a estatística são patinetes, bikes e motos — não o automóvel na garagem.

O que o levantamento mediu, em números

IndicadorValorPeríodo
Ocorrências registradas302024 ¹
Ocorrências registradas332025 ¹
Ocorrências registradas181º trimestre de 2026 ¹
Motos, ciclomotores e autopropelidos elétricos36 ocorrências2024 a 2026 ¹
Bicicletas elétricas25 ocorrências2024 a 2026 ¹
Incidentes em residências42% do total2024 a 2026 ¹
Controlados por populares antes da chegada das guarnições62%2024 a 2026 ¹
Demandaram atuação das guarnições38%2024 a 2026 ¹

Fontes por número: ¹ CBMERJ — “Corpo de Bombeiros faz levantamento inédito sobre ocorrências envolvendo veículos e dispositivos eletrificados”, 5ª Seção do Estado-Maior Geral, publicado em maio de 2026 no portal oficial (cbmerj.rj.gov.br). Consulta em 7/jun/2026.

Observação: a soma de motos/ciclomotores/autopropelidos (36) e bicicletas elétricas (25) corresponde à maioria das ocorrências do período. O release não detalha a composição do restante e não apresenta recorte específico para automóveis elétricos.

O recorte de ambiente e horário é a parte tecnicamente relevante. Segundo o CBMERJ, a maior parte dos incidentes ocorre em ambientes internos — quartos, salas e cozinhas aparecem nos registros —, onde a concentração de calor e de gases tóxicos acelera a propagação. O órgão chama atenção para a proximidade com a chamada “carga de incêndio”: cortinas, sofás, colchões, móveis e revestimentos inflamáveis que transformam um curto numa tragédia. O intervalo entre meia-noite e 6h concentra boa parte das ocorrências, o que o estudo associa a carregamentos prolongados durante a madrugada, sem supervisão.

Onde a manchete se descolou do estudo

A frase “há um horário proibido para recarregar carro elétrico” circulou em portais de tecnologia e de notícias nos últimos dias. Ela não está no levantamento. O CBMERJ fala em “possível relação” entre o pico de madrugada e o carregamento prolongado — uma hipótese, não uma proibição. E a citação institucional que acompanha o estudo, do coronel Tarciso Salles, secretário de Estado de Defesa Civil e comandante-geral do Corpo de Bombeiros, é explícita sobre o objeto: ele fala em bicicletas, patinetes e outros equipamentos movidos a bateria, e orienta usar carregadores certificados, carregar em locais ventilados e não deixar o dispositivo carregando a noite inteira. Nada disso é sobre o automóvel elétrico.

A distinção importa porque muda o leitor que precisa se preocupar. Quem mora num apartamento e guarda um patinete ou uma bike elétrica carregando no quarto está exatamente no perfil de risco que o estudo descreve. Quem tem um carro elétrico carregando por wallbox na garagem está fora desse recorte — e não há, no levantamento, dado que diga o contrário.

O que se sabe sobre o carro elétrico, especificamente

Aqui o terreno é mais firme do que a manchete sugere. Em painel da Rio Innovation Week, em 13 de agosto de 2025, representantes do CBMERJ afirmaram que, até aquele momento, não havia registro de incêndio envolvendo veículo elétrico no estado do Rio de Janeiro, ao mesmo tempo em que sinalizavam o aumento das ocorrências com micromobilidade. É preciso situar a data: essa afirmação é de agosto de 2025 e antecede em nove meses o levantamento de maio de 2026. Vale como retrato do que a corporação observava então, não como conclusão do estudo recente — que, de novo, simplesmente não quantifica automóveis.

No plano estatístico mais amplo, a Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE) sustenta, com base em dados norte-americanos, que para cada 100 mil veículos vendidos ocorrem 1.529,9 incêndios em carros a combustão contra 25,1 em modelos 100% elétricos — uma probabilidade cerca de 60 vezes menor para o elétrico. E há dado brasileiro: em outubro de 2025, a ABVE e o Corpo de Bombeiros de São Paulo incendiaram dez carros elétricos em testes controlados em Franco da Rocha, com diferentes químicas de bateria, e concluíram que a intensidade do fogo é semelhante à de um veículo a combustão. O combate, segundo os bombeiros paulistas, usa estratégias parecidas com as já empregadas em carros convencionais.

Isso não significa que o tema seja simples. O incêndio de bateria de lítio tem características próprias que o estudo carioca registra: reignição, fumaça tóxica intensa e dificuldade de resfriamento, que exigem técnica especializada. Quando o fogo começa, apagá-lo é mais trabalhoso — só que, no caso do automóvel, ele começa com frequência muito menor.

Onde CBMERJ e ABVE de fato concordam

O ponto de convergência é a recarga improvisada, e ele atravessa micromobilidade e automóvel. O CBMERJ pede carregadores certificados e compatíveis. A ABVE, no estudo de São Paulo, recomenda que a recarga em garagem seja feita por wallbox — equipamento fixo com sistemas de segurança e controle elétrico — e afirma que carregador portátil ligado direto a tomada comum de 220V não é recomendado e não deve ser autorizado. O risco residencial existe, mas ele não vem do veículo elétrico em si: vem da instalação elétrica inadequada, do carregador genérico e do hábito de deixar uma bateria de origem duvidosa carregando sem supervisão, perto de material inflamável.

O que verificar antes de carregar em casa

Para quem usa patinete, bicicleta ou moto elétrica: use o carregador original ou certificado e compatível com o equipamento; carregue em local ventilado, longe de cortinas, sofás e colchões; evite deixar a bateria carregando a noite inteira e desligue ao atingir a carga; não bloqueie rotas de fuga com o equipamento em recarga.

Para quem tem carro elétrico: priorize a instalação de um wallbox por profissional habilitado, com Anotação de Responsabilidade Técnica; evite carregadores portáteis conectados a tomadas residenciais de 220V como solução permanente; em condomínio, confirme que a instalação do ponto de recarga seguiu as normas técnicas e a regularização exigida pelo Corpo de Bombeiros.

O levantamento do CBMERJ é um alerta legítimo, e o crescimento das ocorrências é real. Ele só não é o alerta que a manchete vendeu. Para o consumidor de mobilidade elétrica, a informação útil é mais específica e menos assustadora: o problema mora na recarga improvisada de dispositivos de bateria, sobretudo os de micromobilidade guardados dentro de casa — e a forma de reduzir o risco é conhecida.


Carango Responde

1. O estudo do CBMERJ diz que carros elétricos estão pegando fogo na recarga?

Não. O levantamento trata de baterias de íons de lítio em geral e é dominado pela micromobilidade: 36 das ocorrências envolvem motos, ciclomotores e autopropelidos elétricos, e 25 envolvem bicicletas elétricas. O documento não quantifica incêndios em automóveis elétricos.

2. Existe mesmo um “horário proibido” para carregar?

Não há proibição. O CBMERJ observou que boa parte das ocorrências acontece entre meia-noite e 6h e levantou a hipótese de relação com carregamentos prolongados durante a madrugada. É uma constatação estatística e uma recomendação de cautela, não uma regra ou vedação.

3. Carro elétrico pega fogo mais do que carro a combustão?

Os dados disponíveis apontam o contrário. A ABVE, com base em estatísticas dos EUA, cita 25,1 incêndios por 100 mil elétricos contra 1.529,9 por 100 mil a combustão — cerca de 60 vezes menos. O que muda é o combate: o incêndio de bateria de lítio é mais difícil de extinguir, ainda que muito mais raro.

4. Então qual é o risco real na recarga doméstica?

A recarga improvisada. Carregador genérico ou portátil ligado a tomada comum, instalação elétrica inadequada e baterias de qualidade incerta carregando sem supervisão perto de material inflamável. CBMERJ e ABVE convergem nesse ponto: carregador certificado para micromobilidade e wallbox instalado por profissional habilitado para o automóvel.

5. O Corpo de Bombeiros do RJ já registrou incêndio de carro elétrico?

Em agosto de 2025, em painel público, representantes do CBMERJ afirmaram que até aquele momento não havia registro desse tipo no estado. Essa declaração é anterior ao levantamento de maio de 2026, que não traz recorte específico para automóveis. Não há, nas fontes consultadas, dado mais recente que atualize esse número.


Notas técnicas

Os números do levantamento do CBMERJ correspondem a ocorrências registradas entre 2024 e o primeiro trimestre de 2026, conforme o release oficial publicado em maio de 2026 e consultado em 7 de junho de 2026.

As estatísticas comparativas de incidência de incêndio entre veículos elétricos e a combustão citadas pela ABVE têm origem em dados norte-americanos e são apresentadas pela associação como referência internacional; não correspondem a um levantamento de frota brasileira.

Os resultados do teste ABVE/Corpo de Bombeiros de São Paulo foram divulgados em outubro de 2025, no C-Move — Congresso da Mobilidade Verde e Veículos Elétricos, e dizem respeito à intensidade do incêndio e ao protocolo de combate, não à frequência de ocorrências.

A afirmação sobre ausência de registro de incêndio de veículo elétrico no estado do Rio de Janeiro é datada de agosto de 2025 e não foi atualizada nas fontes consultadas até a publicação.


Como apuramos

Esta matéria partiu do release oficial do CBMERJ e o confrontou com a cobertura secundária que o reembalou. As fontes primárias consultadas foram o portal do CBMERJ (release do levantamento e registro do painel da Rio Innovation Week) e a página de perguntas e respostas da ABVE. As fontes secundárias jornalísticas (Canaltech, Perfil, Diário do Rio, AutoData) foram usadas para mapear como o dado foi tratado e para localizar o estudo ABVE/Bombeiros-SP. A data do painel da Rio Innovation Week foi verificada de forma cruzada com a programação do evento e o registro do CREA-RJ. Período de apuração: 7 de junho de 2026.


Limitações desta matéria

Não foi possível confirmar de forma independente: a composição exata das ocorrências do levantamento do CBMERJ que não se enquadram em motocicletas/ciclomotores/autopropelidos (36) e bicicletas elétricas (25); a existência ou não de registro de incêndio de automóvel elétrico no estado do Rio de Janeiro em data posterior a agosto de 2025; e o detalhamento metodológico do levantamento do CBMERJ além do que o release oficial divulgou.


Fontes

  • CBMERJ — “Corpo de Bombeiros faz levantamento inédito sobre ocorrências envolvendo veículos e dispositivos eletrificados”, portal oficial, maio de 2026. Consulta em 7/jun/2026.
  • CBMERJ — “CBMERJ participa de painel sobre segurança nas instalações das estações de recarga dos veículos elétricos”, portal oficial, registro do painel de 13/ago/2025.
  • ABVE — “Perguntas e respostas”, abve.org.br. Consulta em 7/jun/2026.
  • AutoData — “Dez carros elétricos foram incendiados em testes com ABVE e Bombeiros”, 3/out/2025.
  • Canaltech — “ABVE: carros elétricos não têm mais risco de incêndio que os a combustão”, 15/out/2025; e “Recarga de carro elétrico em casa tem horário ‘proibido’; entenda”, jun/2026.
  • CREA-RJ — registro do painel sobre eletropostos na Rio Innovation Week, 13/ago/2025.
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