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CEO da Ford revela perdas de US$ 5 bilhões com elétricos e admite erro de estratégia no mercado americano

Por Guga Moraes - Editor Chefe

Jim Farley expõe publicamente desafios da eletrificação e aponta divergência entre China e EUA na adoção de veículos elétricos

Em entrevista ao programa “Office Hours: Business Edition”, Jim Farley, CEO da Ford, apresentou uma avaliação franca sobre os desafios enfrentados pela montadora americana na transição para veículos elétricos. Farley revelou que a divisão Model E — criada em 2022 para concentrar os esforços em eletrificação — registra perdas anuais de US$ 5 bilhões, e alertou que o mercado de EVs nos Estados Unidos pode encolher significativamente caso os incentivos federais sejam descontinuados.

A declaração marca uma mudança significativa no discurso de uma das três grandes montadoras americanas, que investiu bilhões em eletrificação desde 2020 com o lançamento do Mustang Mach-E, F-150 Lightning e E-Transit.

Divisão estratégica expôs realidade financeira dos elétricos

Em março de 2022, Farley tomou a decisão controversa de dividir a Ford em três unidades de negócio independentes: Model E (veículos elétricos), Ford Pro (veículos comerciais) e Ford Blue (veículos de combustão para varejo). A medida tinha como objetivo tornar transparente a performance de cada segmento — especialmente os resultados negativos dos elétricos.

“Eu queria que minha equipe não tivesse os resultados escondidos dentro da companhia, onde as vendas do F-150 compensariam as perdas. Eu queria que fosse público”, afirmou Farley. “Acredito que enfrentar os problemas mais difíceis o mais rápido possível, às vezes publicamente, faz com que você os resolva mais rapidamente.”

A estratégia permitiu aos investidores e analistas acompanhar com precisão a saúde financeira de cada divisão. Enquanto a Ford Pro registra margens operacionais superiores a 10% com veículos comerciais como Transit e Super Duty, a Model E acumula prejuízos de US$ 5 bilhões anuais — dado que outras montadoras tradicionais mantêm diluído em seus balanços consolidados.

Alerta: mercado de EVs pode encolher para 5% sem subsídios federais

Contrariando projeções otimistas feitas por analistas e pela própria indústria entre 2020 e 2022, Farley alertou que, sem subsídios federais consistentes, a participação de EVs nos Estados Unidos poderia cair para algo em torno de 5% das vendas, um cenário bem abaixo dos 20% a 30% projetados pela indústria nos últimos anos. O alerta foi feito em contexto de incerteza sobre a continuidade do crédito tributário federal de US$ 7.500 para compradores de veículos elétricos.

“Descobrimos que os americanos são realmente inteligentes. Eles não querem um veículo elétrico de US$ 70 ou US$ 80 mil apenas porque é elétrico. Eles querem um veículo elétrico de US$ 30 mil, porque esse é o ponto de preço e o ciclo de uso — como dirigir um veículo de deslocamento diário — que se encaixa em um EV neste momento de sua tecnologia”, explicou o executivo.

Nos Estados Unidos, os veículos elétricos estabilizaram em cerca de 10% das vendas de 2024, segundo dados combinados da Cox Automotive e da Alliance for Automotive Innovation. Com o possível fim do crédito federal de US$ 7.500 e a guerra de preços entre montadoras, executivos como Farley já admitem que essa fatia pode encolher no curto prazo.

Segundo Farley, veículos de US$ 70 mil exigem autonomia elevada para viagens longas, algo que implica em baterias maiores, tempos de recarga e infraestrutura ainda insuficiente nos Estados Unidos. O perfil de uso americano — com deslocamentos mais longos e menor densidade de pontos de recarga em comparação à Europa e China — torna EVs premium menos atraentes para a maioria dos consumidores.

Lição cara: desmontando um Tesla Model 3

Farley relatou um episódio revelador que expôs a defasagem tecnológica da Ford em relação à Tesla. Ao desmontar um Tesla Model 3 e comparar com o Mustang Mach-E — então o segundo veículo elétrico mais vendido nos Estados Unidos —, os engenheiros da Ford descobriram que a fiação elétrica do Mach-E tinha 1,6 km a mais que a do Model 3.

“Nossa fiação pesava 32 kg a mais. E apenas o custo da bateria para transportar essa fiação adicional no carro era de US$ 200 por veículo”, afirmou. “Um engenheiro de motor a combustão olha para uma fiação e diz: ‘Bem, são todas meio parecidas, então fazemos licitação com fornecedores.’ Mas quando um EV tem uma bateria realmente cara, o peso do veículo é monetizado através do tamanho da bateria.”

Ford Mustang Mach E vs Tesla Model 3 webp
Ford Mustang Mach-E vs Tesla Model 3

A análise mostrou que, em veículos elétricos, cada quilograma extra de peso exige maior capacidade de bateria — componente que representa entre 30% e 40% do custo total do veículo. Reduzir peso em componentes secundários permite economizar milhares de dólares em células de bateria, abordagem que a Tesla adotou desde o início, mas que montadoras tradicionais demoraram a assimilar.

China lidera, Estados Unidos hesitam

Farley destacou a disparidade brutal entre mercados. Enquanto nos Estados Unidos os EVs enfrentam resistência de consumidores e estagnação em torno de 9% de participação de mercado (dados de 2024, segundo Cox Automotive), Na China — maior mercado automotivo do mundo, com cerca de 30 milhões de veículos vendidos por ano— os veículos elétricos e híbridos plug-in (NEVs) já respondem por cerca de 45% das vendas e caminham para 50% em 2025, com diversos meses em que os NEVs ultrapassam a metade do mercado.

“Na China, quase 50% dos veículos vendidos são elétricos. O governo apostou completamente nessa tecnologia e colocou o peso econômico a favor do consumidor”, disse Farley. “Se a Ford quer ter sucesso, não podemos abandonar os EVs. Não apenas para os EUA, mas se quisermos ser uma empresa global, não vou entregar isso aos chineses.”

A declaração reflete a preocupação estratégica com montadoras chinesas como BYD, que dominam o mercado doméstico e avançam agressivamente na Europa, Sudeste Asiático e América Latina — incluindo o Brasil, onde a BYD se tornou líder em eletrificação.

Clientes comerciais adotam EVs mais rápido que consumidores

Um dado surpreendente revelado por Farley é que a adoção de veículos elétricos avança mais rapidamente entre clientes comerciais (frota Ford Pro) do que entre consumidores de varejo. A Ford detém cerca de 80% de participação no mercado americano de vans elétricas, com o E-Transit liderando vendas entre empresas de logística, utilities e serviços.

“Os clientes comerciais nos empurram para o futuro muito, muito antes do que um cliente de Explorer ou F-150, porque eles usam o veículo como uma ferramenta. O veículo literalmente é um martelo”, explicou. “Eles estão totalmente focados em eficiência, custo de propriedade e eficiência do que aquele veículo faz.”

Segundo o executivo, softwares de manutenção preditiva, telemetria e otimização de rotas têm aceitação imediata entre operadores de frotas, que utilizam veículos entre 70% e 80% do dia — contra 10% de utilização média de um veículo de passeio. Essa intensidade de uso torna o custo operacional por quilômetro mais relevante que o preço de compra, favorecendo EVs, que têm manutenção reduzida e custo energético inferior.

Blue Oval City: aposta de US$ 5,6 bilhões adiada

Apesar das perdas e da reavaliação do mercado americano, a Ford mantém investimentos em capacidade produtiva de elétricos. A Blue Oval City, complexo industrial anunciado em 2021 no Tennessee com investimento de US$ 5,6 bilhões, incluirá linha de montagem de veículos elétricos e fábrica de baterias em parceria com a sul-coreana SK On.

Farley destacou que a escolha do Tennessee — estado com desemprego historicamente elevado em áreas rurais — reflete o compromisso social da Ford com a chamada “economia essencial”. “Literalmente, a vida dessas pessoas mudará para sempre por causa do emprego na Ford”, afirmou.

O complexo está em construção no Tennessee e deverá iniciar a produção de uma nova geração de picapes elétricas na metade da segunda metade da década, com início de fabricação em larga escala projetado para 2027–2028, após o adiamento do plano original que previa operação em 2025.

Estratégia revisada: foco em EVs acessíveis

Farley admitiu que a Ford está redirecionando investimentos. Há cerca de um ano, a montadora decidiu realocar capital de projetos de EVs premium para veículos elétricos de entrada, com preço-alvo próximo a US$ 30 mil — segmento onde Tesla e montadoras chinesas já operam.

“Estamos na primeira entrada do jogo, não na nona. A segunda e terceira entradas podem parecer completamente diferentes da primeira”, disse o CEO, usando metáfora do beisebol. “A habilidade mais importante como líder é velocidade e flexibilidade. Agora sabemos que o mercado de EVs nos EUA é totalmente diferente do que pensávamos.”

A Ford não detalhou publicamente os modelos que comporão essa nova linha de EVs acessíveis, mas analistas especulam que a montadora pode adaptar plataformas globais já utilizadas na Europa e China, onde comercializa compactos elétricos a preços inferiores.

Comparação com o mercado brasileiro

No Brasil, após encerrar a produção local em 2021, a Ford atua como importadora. A marca estreou nos 100% elétricos em outubro de 2023 com o Mustang Mach-E GT Performance, posicionado na faixa premium, com preço de lançamento de R$ 486 mil, mas ainda não oferece EVs de volume ou modelos acessíveis no mercado nacional.

Segundo a Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE), o Brasil fechou 2024 com cerca de 177 mil veículos eletrificados leves emplacados, o que representou entre 7% e 8% das vendas de leves, dependendo da metodologia (com ou sem micro-híbridos). Em 2025, o share segue em alta, aproximando-se dos 10% em alguns meses.

Diferentemente da China, onde políticas governamentais impulsionam a eletrificação com isenções fiscais e subsídios diretos, Brasil e Estados Unidos ainda carecem de incentivos estruturais consistentes. No Brasil, benefícios como isenção de IPI e IPVA variam entre estados, criando assimetrias regionais.


Carango Responde!

1. Por que a Ford dividiu a empresa em três divisões separadas?
Para tornar transparente o desempenho financeiro de cada segmento, especialmente as perdas bilionárias da divisão de elétricos (Model E), e evitar que fossem mascaradas pelos lucros de veículos a combustão.

2. Por que EVs de US$ 70 mil não vendem bem nos EUA, segundo Farley?
Americanos dirigem longas distâncias e a infraestrutura de recarga ainda é limitada. EVs premium exigem baterias grandes, encarecem o veículo e não compensam para a maioria dos usuários. O ponto ideal seria um EV de US$ 30 mil para uso urbano.

3. O que a Ford aprendeu ao desmontar um Tesla Model 3?
Que o Mach-E tinha 1,6 km de fiação a mais que o Model 3, pesando 32 kg extras — o que custava US$ 200 adicionais só em bateria para transportar esse peso. EVs exigem abordagem radicalmente diferente de engenharia em relação a veículos a combustão.

4. Por que clientes comerciais adotam EVs mais rápido que consumidores?
Porque usam veículos como ferramentas de trabalho, rodando 70-80% do tempo. Para eles, custo operacional por km é mais importante que preço de compra — e EVs têm manutenção menor e energia mais barata.

5. A Ford vai desistir de veículos elétricos?
Não. Apesar das perdas nos EUA, a Ford está redirecionando investimentos para EVs mais acessíveis (US$ 30 mil) e mantém foco no mercado global, especialmente China, onde EVs já são aproximadamente metade das vendas.


Glossário Automotivo

🔋 BEV (Battery Electric Vehicle): veículo 100% elétrico movido exclusivamente por bateria, sem motor a combustão.

⚡ Model E: divisão da Ford dedicada exclusivamente ao desenvolvimento, produção e comercialização de veículos elétricos, criada em março de 2022.

🔌 NEV (New Energy Vehicle): termo usado na China para designar veículos elétricos puros (BEV) e híbridos plug-in (PHEV).

🏁 kWh (quilowatt-hora): unidade de medida da capacidade energética de baterias. Quanto maior o kWh, maior a autonomia potencial do veículo.

🔧 Blue Oval City: complexo industrial da Ford no Tennessee (EUA) com investimento de US$ 5,6 bilhões para produção de veículos elétricos e baterias.


Como realizamos esta análise:

  • Fonte primária: entrevista de Jim Farley ao programa “Office Hours: Business Edition”, publicada em novembro de 2025
  • Dados complementares: ABVE (mercado brasileiro), Cox Automotive e Auto Innovators (mercado americano)
  • Conversão cambial: US$ 1 = R$ 5,00 (referência aproximada para o período 2024–2025)
  • Contexto: comparação entre estratégias de eletrificação nos mercados americano, chinês e brasileiro
  • Atualização: janeiro de 2025

Fontes consultadas:

  • Transcrição: Office Hours Business Edition — Episode 3, Jim Farley (novembro 2025)
  • ABVE — Associação Brasileira do Veículo Elétrico
  • Cox Automotive — dados de vendas EUA
  • Reuters, Bloomberg — análises setoriais

Ouça a entrevista aqui:

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Jornalista e criador da Carango Elétrico, Julio 'Guga' Moraes vive entre motores, dados e boas ideias — explorando como a tecnologia está redefinindo o jeito de se mover pelo mundo.