Entenda como a tecnologia avança enquanto o Brasil debate regulamentação para veículos autónomos.
A mobilidade urbana está passando por uma transformação silenciosa, mas radical. Enquanto o Brasil ainda debate a regulamentação de veículos autónomos, a China consolida a sua liderança no sector. O Apollo Go — serviço de robotáxi da gigante de tecnologia Baidu — acaba de anunciar números impressionantes: mais de 17 milhões de viagens completadas globalmente e 250 000 corridas semanais realizadas sem qualquer operador de segurança a bordo.
Os dados posicionam a empresa chinesa como protagonista na corrida global por transporte autónomo comercial. Para o mercado brasileiro, que começa a discutir a chegada dos veículos autónomos, os números da Baidu servem como termómetro do futuro próximo da mobilidade eléctrica e inteligente.
A escala inédita do Apollo Go: números que impressionam
O fundador da Baidu, Robin Li, revelou que o Apollo Go completou mais de 17 milhões de viagens desde o início das operações, com presença em 22 cidades ao redor do mundo. Entre essas cidades estão metrópoles chinesas como Pequim, Xangai, Wuhan, Shenzhen e Hong Kong, assim como cidades internacionais como Dubai e Abu Dhabi.
O volume semanal de ~250 000 corridas totalmente autónomas coloca o Apollo Go à frente das comparações tradicionais com a Waymo, da Alphabet.
Segundo Li, o serviço registou um crescimento de quase 50 % no trimestre recente e ultrapassou 3 milhões de corridas entre agosto e Outubro de 2024.

Além disso, o índice de segurança citado pela Baidu menciona que os veículos autónomos do Apollo Go percorrem em média 10,14 milhões de quilómetros antes de um único acionamento de airbag — número que, segundo a empresa, supera não apenas o desempenho de motoristas humanos mas também o de concorrentes.
Na vertente de custos, a sexta geração de robotáxis da Baidu, lançada em 2024, custa cerca de RMB 204.600 (aproximadamente R$ 145 mil na cotação da época) e a sétima geração, segundo fontes da empresa, deverá custar menos de US$ 20 000 (~R$ 110 mil).
Quanto à viabilidade económica, representantes da unidade de negócios de direção autônoma da Baidu afirmaram que as operações em Wuhan estão próximas do ponto de equilíbrio financeiro, e que a expectativa é que o Apollo Go atinja a lucratividade em 2025.
Segurança como diferencial competitivo
Um dos destaques da apresentação foi o índice de segurança: percorrer mais de 10 milhões de km antes de um acionamento de airbag representa um marco significativo na operação autónoma.
Para efeito de comparação, um motorista brasileiro comum percorre cerca de 15 000 km por ano (segundo dados da Denatran) — o que significa que o Apollo Go acumula o equivalente a mais de 675 anos de condução humana antes de um incidente com ativação de airbag.
Esse tipo de estatística coloca a tecnologia autónoma não apenas como viável, mas como possivelmente mais segura do que a condução humana tradicional — pelo menos nos ambientes de teste e operação controlada.
Custo em queda: a sexta e sétima gerações de robotáxis
A viabilidade económica dos robotáxis tem sido um dos maiores desafios do sector. A Baidu, contudo, conseguiu reduzir drasticamente os custos de produção de seus veículos autónomos. A sexta geração do Apollo Go, lançada em 2024, teve custo reportado de RMB 204.600 (≈ US$ 28 000 ou R$ 145 mil). A sétima geração está projetada para custar menos de US$ 20 000 (≈ R$ 110 mil) — um valor inferior ao preço médio de um sedã eléctrico premium no Brasil, como o BYD Seal ou o Tesla Model 3.
Essa queda de custos é um indicativo claro de que a tecnologia autónoma está se aproximando da escala comercial massiva.
Projeção de lucratividade em 2025
Representantes da Baidu afirmam que o negócio de robotáxis opera com eficiência crescente e que o serviço Apollo Go está no limiar do ponto de equilíbrio, graças à expansão da área de cobertura e ao ganho de eficiência operacional. A expectativa é que atinja a lucratividade em 2025 — um marco histórico para o setor de robotáxis.
E o Brasil? Regulamentação e infraestrutura ainda são obstáculos
Regulamentação
No Brasil, ainda não existe uma legislação específica que permita a circulação comercial de robotáxis totalmente autónomos em vias públicas. Segundo a Polícia Rodoviária Federal, não há regulamentação definitiva sobre veículos autónomos no País.
Tramita no Congresso Nacional o Projeto de Lei 1.317/2023 (PL 1.317/2023), que propõe alterações ao Código de Trânsito Brasileiro (Lei 9.503/1997) para regulamentar veículos autônomos terrestres.
Na Câmara dos Deputados, a Comissão de Viação e Transportes (CVT) aprovou normas para a circulação de veículos autônomos, exigindo autorização de órgãos competentes, testes prévios, seguro obrigatório e adaptação da infraestrutura viária.
Ou seja: o marco regulatório está em avanço, mas ainda não sancionado nem implementado para operações comerciais em larga escala.
Infraestrutura de recarga
Além da regulamentação, a infraestrutura de recarga para veículos eléctricos é outro aspecto relevante para a eventual operação de robotáxis eléctricos no Brasil. Segundo dados da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE) em parceria com a empresa Tupi Mobilidade, o Brasil contava com 14.827 eletropostos públicos e semipúblicos até fevereiro de 2025.
Em agosto de 2025, esse número alcançou 16.880 pontos de recarga públicos e semipúblicos.
Desse total, cerca de 3.855 são carregadores rápidos (DC) — cerca de 23 % do total.
Portanto, embora a rede esteja em expansão, ainda há desafios para escalar a operação de frotas autónomas e eléctricas — sobretudo em termos de cobertura, velocidade de recarga e padronização.
Comparativo: Baidu vs Waymo — quem lidera a corrida autónoma?
Segue um comparativo resumido entre o Apollo Go da Baidu e o serviço da Waymo (Alphabet, EUA):
| Critério | Apollo Go (Baidu) 🇨🇳 | Waymo (Alphabet) 🇺🇸 |
|---|---|---|
| Viagens acumuladas | 17 milhões+ | 10 milhões (maio/2024) |
| Corridas semanais | ~250 mil | Não divulgado |
| Cidades em operação | 22 (China, Dubai, Abu Dhabi) | San Francisco, Phoenix, Los Angeles |
| Custo do robotáxi (6ª geração) | RMB 204.600 (~R$ 145 mil) | Não divulgado |
| Projeção de lucratividade | 2025 | Não informado |
| Segurança (km por airbag) | 10,14 milhões km* | Não divulgado |
Fonte: divulgações da Baidu + análise Carango Elétrico.
Nota: A liderança da Baidu depende de comparativos diretos (“corridas semanais”, “km antes de incidente”) que a Waymo não divulga com o mesmo nível de detalhe público, o que exige cautela antes de afirmar uma “liderança incontestável”.
Conclusão: o futuro da mobilidade já começou (mas ainda não no Brasil)
O Apollo Go demonstra que os robotáxis autónomos não são mais ficção científica, mas uma realidade comercial cada vez mais próxima. Com custos em queda, operações em escala e indicadores de segurança superiores aos de motoristas humanos (segundo a própria empresa), a tecnologia está preparada para expandir globalmente.
Para o Brasil, a mensagem é clara: a janela de oportunidade para se posicionar neste mercado está a fechar. Enquanto China, Estados Unidos e Emirados Árabes já colhem os frutos da mobilidade autónoma, o País ainda debate leis, adapta infraestrutura e enfrenta desafios de cobertura de recarga.
A regulamentação rápida, a criação de ambientes de teste e a expansão da infraestrutura de recarga podem atrair investimentos e colocar o Brasil no mapa da mobilidade do futuro — mas o relógio está a correr.
Perguntas frequentes (FAQ)
O que é um robotáxi?
Robotáxi é um veículo autónomo que oferece serviço de transporte de passageiros sem a necessidade de um motorista humano. O carro utiliza sensores, câmeras, radares e inteligência artificial para navegar no trânsito.
O Apollo Go opera no Brasil?
Não. O Apollo Go está presente em 22 cidades, principalmente na China, Dubai e Abu Dhabi. O Brasil ainda não possui regulamentação que permita a circulação comercial de veículos autónomos em vias públicas.
Quantos pontos de recarga públicos existem no Brasil?
Até agosto de 2025, o Brasil tinha cerca de 16.880 pontos públicos e semipúblicos de recarga para veículos eléctricos, dos quais cerca de 3.855 são carregadores rápidos (DC).
Quando os robotáxis chegarão ao Brasil?
Não há previsão oficial. A chegada depende da aprovação de um marco regulatório federal que regulamente a circulação de veículos autónomos em vias públicas — o PL 1.317/2023 está em tramitação.
Qual a diferença entre um veículo autónomo nível 4 e nível 5?
- Nível 4 (Alta automação): o veículo pode operar sem intervenção humana, mas apenas em condições e áreas específicas (geofenced).
- Nível 5 (Automação total): o veículo opera de forma totalmente autónoma em qualquer situação e ambiente, sem necessidade de controlo manual.
🔋 Glossário Automotivo
- Robotáxi: Veículo autónomo que opera como táxi, transportando passageiros sem a presença de um motorista humano. Utiliza sensores, câmeras, LiDAR e inteligência artificial para navegação.
- Direção autónoma (nível 4): Classificação da SAE International que define veículos capazes de operar sem intervenção humana em condições e áreas delimitadas.
- LiDAR (Light Detection and Ranging): Tecnologia que utiliza lasers para criar mapas tridimensionais do ambiente ao redor do veículo, identificando obstáculos, pedestres e outros veículos com precisão centimétrica.
- BEV (Battery Electric Vehicle): Veículo 100 % eléctrico, movido exclusivamente por baterias recarregáveis.
- Ponto de equilíbrio (break-even): Momento em que as receitas de um negócio se igualam aos custos operacionais, indicando viabilidade financeira.


