Com vendas de eletrificados crescendo 65% em 2025, país enfrenta apagão de profissionais qualificados e salários chegam a R$ 12 mil
- ABNT PR 1025: a norma que reorganiza o jogo
- Escassez em números: 90% das empresas sem mão de obra suficiente
- Salários em alta: por que falar em R$ 12 mil não é exagero
- O que faz, afinal, um mecânico de veículos elétricos?
- Capacitação: SENAI puxa a fila, mas a demanda ainda é maior que a oferta
- Muito além das concessionárias: onde estão as oportunidades?
- Desafios técnicos e regulatórios da manutenção eletrificada
- Apagão de mão de obra ou janela de oportunidade?
- Carango Responde!
Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) acaba de detalhar a Prática Recomendada ABNT PR 1025, primeira norma brasileira focada em competências, segurança e qualificação para quem faz manutenção de veículos elétricos e híbridos. O texto será apresentado na COP30, em Belém, e estabelece uma espécie de “piso técnico” para trabalhar com sistemas de alta tensão na reparação automotiva.
A chegada dessa norma coincide com um ponto de tensão no mercado: oficinas, concessionárias e montadoras relatam dificuldade crescente para contratar mecânicos preparados para lidar com carros elétricos, ao mesmo tempo em que os salários para especialistas em alta tensão e diagnóstico de baterias podem chegar à casa dos R$ 12 mil mensais.
Segundo dados da ABVE citados em estudo da Qi Mercado, o Brasil vendeu 48.500 veículos elétricos a bateria (BEV) e híbridos plug-in (PHEV) entre janeiro e junho de 2025, um avanço de 65% em relação ao mesmo período de 2024. A frota eletrificada já havia ultrapassado 300 mil veículos em circulação em 2024 e, mantido o ritmo atual, a projeção é de mais de 220 mil eletrificados emplacados apenas em 2025.
O resultado é um descompasso evidente: a eletrificação corre em ritmo acelerado, enquanto a formação de mão de obra caminha em ritmo bem mais lento.
ABNT PR 1025: a norma que reorganiza o jogo
A ABNT PR 1025 – Veículo propelido a eletricidade – Competências de pessoal define, pela primeira vez no país, critérios mínimos de experiência e formação para profissionais que atuam na manutenção de veículos elétricos e híbridos.
Pelo texto, obtido com exclusividade por veículos de imprensa especializados, valem as seguintes regras de experiência:
- Até o 5.º ano do Ensino Fundamental:
- 4 anos de atuação como ajudante ou
- 2 anos como mecânico automotivo, antes de poder trabalhar com veículos elétricos.
- Com curso profissionalizante em elétrica ou eletrónica:
- 1 ano de experiência comprovada na área passa a ser suficiente para atuar com alta tensão automotiva.
- Com curso técnico ou ensino superior:
- o profissional precisa ter 1 ano de experiência como mecânico de tração elétrica (alta tensão e baterias automotivas) para ser enquadrado nos níveis de competência da norma.
A PR 1025 não é lei, mas normas ABNT costumam ser adotadas voluntariamente por redes de concessionárias, oficinas estruturadas e seguradoras como referência de qualidade, segurança e padronização de processos.
O presidente da ABNT, Mário William Esper, e o Instituto da Qualidade Automotiva (IQA) destacam que o texto é um marco para alinhar o Brasil às melhores práticas internacionais em mobilidade elétrica, especialmente porque o reparo de veículos eletrificados envolve tensões que podem chegar a 800 V em corrente contínua, com riscos reais de choque, arco elétrico e incêndio em caso de procedimentos inadequados.
Escassez em números: 90% das empresas sem mão de obra suficiente
A sensação de “apagão” de mecânicos não é apenas anedótica. Ela aparece com força em pesquisas recentes:
- No panorama nacional, 90,4% das empresas entrevistadas em estudo sobre mobilidade elétrica declaram falta de profissionais qualificados para atuar com veículos elétricos e híbridos.
- No recorte do Nordeste, 89,3% das empresas relatam carência de profissionais, com impactos diretos no dia a dia das operações.
- 46,2% das empresas nordestinas já enfrentam acúmulo de serviços por falta de gente para executar a manutenção.
- 30,8% relatam prejuízos financeiros diretos, com clientes esperando mais, serviços represados e oportunidades perdidas.
- 45,2% das empresas planejam contratar até 10 profissionais especializados em manutenção de veículos elétricos e híbridos até 2025, em grande parte para atuar em segurança em alta tensão e manutenção de baterias.
Ou seja: a demanda existe, está mapeada e tem horizonte de expansão, mas o funil de profissionais prontos para ocupar essas vagas ainda é estreito.
Ao mesmo tempo, o mercado de eletrificados continua acelerando. Entre janeiro e setembro de 2025, o Brasil emplacou 147.602 veículos leves eletrificados, alta de 20,4% em relação a 2024, com participação de 9,3% nas vendas de veículos leves no mês de setembro.
Salários em alta: por que falar em R$ 12 mil não é exagero
Na prática, a combinação de frota em expansão com poucos especialistas em alta tensão está empurrando os salários para cima. Levantamentos com oficinas especializadas e redes de concessionárias indicam faixas como:
- Mecânico em transição (vindo da combustão): R$ 3.000 a R$ 5.000 por mês;
- Técnico eletromecânico júnior/pleno focado em veículos eletrificados: R$ 4.500 a R$ 8.000;
- Especialista sênior em alta tensão, baterias e diagnóstico avançado em concessionárias ou montadoras: entre R$ 8.000 e R$ 12.000+, especialmente em grandes capitais.
As melhores oportunidades hoje se concentram em:
- Concessionárias de marcas com forte aposta em eletrificação, incluindo grupos com linhas BEV e PHEV robustas;
- Oficinas independentes especializadas em elétricos e híbridos, em regiões metropolitanas;
- Montadoras e fabricantes instalados no Brasil, como BYD e GWM, com estruturas próprias de treinamento;
- Operadores de frota, especialmente empresas de logística e sistemas de transporte público que já operam ônibus elétricos e precisam de equipes internas para manutenção contínua.
É um mercado em que quem domina alta tensão, baterias e eletrónica embarcada tende a ganhar bem acima da média da mecânica tradicional.
O que faz, afinal, um mecânico de veículos elétricos?
Apesar do nome, o trabalho é muito menos “graxa” e muito mais eletrónica, software e gestão de energia. Em vez de abrir motor a combustão, o mecânico de veículos elétricos passa a se concentrar em:
- Sistemas de alta tensão: conjunto motor-inversor, cablagens laranja, módulos de potência;
- Baterias de tração: leitura de parâmetros via BMS (Battery Management System), balanceamento de células e diagnóstico de falhas;
- Regeneração de energia: atuação em problemas de frenagem regenerativa e integração com sistemas de segurança (ABS, ESC etc.);
- Eletrónica embarcada e Rede CAN: interpretação de sinais, análise de falhas intermitentes e atualização de softwares de módulos.
O trabalho começa pelo diagnóstico, que hoje é fortemente digital: scanners, softwares proprietários das montadoras e ferramentas de telemetria são tão importantes quanto o multímetro.
Além disso, esse profissional precisa dominar procedimentos de segurança específicos, como:
- Desenergizar o sistema de alta tensão antes da intervenção;
- Utilizar EPIs certificados (luvas, botas, óculos, ferramentas isoladas);
- Seguir normas como a NR-10, que estabelece requisitos para trabalho em instalações e serviços com eletricidade.
Especialistas entrevistados por instituições de ensino com foco em eletromobilidade costumam comparar o momento atual com o início dos anos 1990, quando a mecânica precisou se reinventar com a chegada da injeção eletrónica: quem se atualizou prosperou, quem não correu atrás ficou para trás.
Capacitação: SENAI puxa a fila, mas a demanda ainda é maior que a oferta
Do ponto de vista de formação, o SENAI virou protagonista na criação de uma trilha estruturada para eletromobilidade em vários estados do país.
Em Santa Catarina, por exemplo, a programação montada em parceria com a indústria prevê quatro níveis de capacitação: FIESC
- F0 – Introdução à segurança em veículos elétricos:
- Carga horária curta (cerca de 4 horas), voltada a quem atua de forma periférica, como vendedores, recepcionistas e lavadores.
- F1 – Instrução em veículos eletrificados:
- Curso de base em segurança e conceitos gerais, pré-requisito para níveis mais avançados.
- F2 – Técnicas de manutenção em sistemas desenergizados:
- Carga horária ampliada, com prática em veículos com alta tensão desligada.
- F3 – Técnicas de manutenção em sistemas energizados:
- Foco em procedimentos com o sistema sob tensão, com ênfase em protocolos de segurança.
No Rio de Janeiro, a Firjan SENAI estruturou centros de treinamento para veículos eletrificados em unidades como Jacarepaguá e Resende, com oficinas dedicadas, equipamentos específicos e certificação internacional em parceria com a TÜV Rheinland, da Alemanha.
No Rio Grande do Norte, o SENAI-RN criou um pacote de cursos que vai de “Princípios do Veículo Elétrico” a formações mais extensas, como “Trabalho Seguro em Veículos Elétricos com Alta Tensão” e “Convertedor e Mantenedor de Veículos Elétricos”, com cargas horárias entre 20 e 160 horas.
Esses programas fazem parte de uma cooperação mais ampla com instituições alemãs e centros de pesquisa, como o CTGAS-ER e institutos federais de Minas Gerais e Santa Catarina, reforçando a troca de conhecimento em conversão de veículos, segurança em alta tensão e práticas de laboratório.
Mesmo assim, as próprias pesquisas do SENAI apontam que o interesse por especialização ainda é tímido frente à demanda projetada.

Muito além das concessionárias: onde estão as oportunidades?
A boa notícia é que mecânicos de veículos a combustão não precisam recomeçar do zero. A experiência acumulada em sistemas de suspensão, travagem, direção e diagnóstico de falhas mecânicas continua válida. O que muda é o “coração” do carro: sai o motor a combustão, entra o powertrain elétrico.
O caminho natural envolve:
- Fazer cursos de especialização em elétrica automotiva e veículos eletrificados (de curta ou média duração);
- Atualizar o ferramental, incluindo equipamentos específicos para alta tensão e scanners compatíveis com sistemas BEV/PHEV;
- Adotar rotinas rigorosas de segurança e procedimentos padronizados.
Estudos recentes destacam que as empresas não reclamam apenas da falta de profissionais “formados”, mas também da baixa procura por especializações em eletromobilidade, o que abre uma janela de oportunidade para quem se antecipar.
Quem se capacita hoje encontra caminhos como:
- Ingressar em concessionárias ou montadoras que já estruturaram operações de elétricos e híbridos;
- Atuar em oficinas independentes especializadas em eletrificados;
- Montar o próprio negócio focado em diagnóstico, manutenção de baterias ou retrofit (conversão de combustão para elétrico), especialmente à medida que veículos usados saírem da garantia e migrarem para a rede independente.
Desafios técnicos e regulatórios da manutenção eletrificada
Do lado das oficinas, não basta apenas ampliar a agenda de cursos. Há desafios estruturais importantes:
- Acesso a dados técnicos e softwares de diagnóstico:
Pesquisas mostram que mais de 80% das oficinas independentes veem o acesso a dados de reparo como principal entrave para a competitividade, à frente até de temas como contratação de técnicos e inflação. - Monopólio de informação das montadoras:
No Brasil, o movimento de abertura de dados de reparação para o mercado independente ainda é incipiente, com forte dependência de redes autorizadas e softwares proprietários. Há discussões em curso na Câmara dos Deputados sobre uma legislação específica para garantir o direito de reparo e acesso a informações técnicas. - Investimento em equipamentos:
Uma oficina para elétricos se parece, por fora, com qualquer oficina moderna, mas exige itens adicionais: ferramentas isoladas para alta tensão, sistemas de elevação adequados para packs de bateria, EPI específicos, estações de diagnóstico avançado, entre outros.
Esses fatores explicam por que a manutenção de veículos elétricos ainda está fortemente concentrada nas redes de concessionárias, prolongando o período em que o consumidor fica “preso” ao serviço autorizado.
Apagão de mão de obra ou janela de oportunidade?
O avanço da eletromobilidade no Brasil mudou a equação da manutenção automotiva. De um lado, vendas recordes de eletrificados, participação acima de 9% em alguns meses e projeções robustas até 2030. De outro, mais de 90% das empresas relatando dificuldade para encontrar profissionais especializados, com oficinas acumulando serviço e, em muitos casos, perdendo receita por falta de gente.
Nesse contexto, a ABNT PR 1025 surge como um marco: define padrões mínimos de experiência, cria uma referência nacional de competências e dá lastro para programas de treinamento em larga escala. Ao mesmo tempo, SENAI, Firjan e parceiros internacionais montam centros de treinamento e cursos específicos para alta tensão, baterias e conversão de veículos.
Para quem já é mecânico, a migração para veículos elétricos é uma evolução natural da carreira, semelhante ao salto da era do carburador para a injeção eletrónica: quem se atualiza amplia o leque de oportunidades e tende a ganhar mais. Para quem está começando, trata-se de entrar cedo em um nicho que junta alta demanda, bons salários e perspectiva de crescimento por muitos anos.
Carango Responde!
1. Quanto ganha um mecânico de carros elétricos no Brasil?
Os salários variam conforme a especialização, a região e o tipo de empresa. Em geral, as faixas vão de R$ 3.500 a R$ 5.000 para profissionais em transição, chegando a R$ 8.000 a R$ 12.000 ou mais para especialistas em alta tensão e diagnóstico avançado em concessionárias de marcas premium, montadoras e grandes centros urbanos.
2. Preciso de curso superior para trabalhar com manutenção de carros elétricos?
Não obrigatoriamente. A ABNT PR 1025 prevê trilhas diferentes: quem tem formação técnica ou superior na área elétrica/electrónica precisa de um ano de experiência em tração elétrica; já profissionais com menor escolaridade podem se enquadrar com dois anos como mecânico automotivo ou quatro anos como ajudante, desde que recebam a capacitação adequada em segurança e alta tensão.
3. Quanto tempo leva para se capacitar na área?
Depende do ponto de partida. Mecânicos que já atuam com veículos a combustão podem fazer cursos de especialização em alguns meses, focando em alta tensão, baterias e eletrónica. Cursos técnicos completos levam em geral de 1 a 2 anos, enquanto graduações em engenharia e pós-graduações em veículos elétricos e híbridos podem levar 3 anos ou mais.
4. Onde posso fazer cursos de capacitação para veículos elétricos?
O SENAI oferece cursos em diversos estados, com centros de treinamento em Santa Catarina, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte e Espírito Santo, entre outros. Além disso, há instituições privadas e centros tecnológicos especializados em eletrónica veicular e eletromobilidade. Vale pesquisar também por cursos de extensão em universidades e pós-graduações específicas em veículos elétricos e híbridos.
5. Carros elétricos exigem muita manutenção?
De forma geral, veículos elétricos têm menos componentes móveis do que os modelos a combustão e tendem a exigir menos manutenção em itens como motor, transmissão e sistema de escapamento — simplesmente porque eles não existem no formato tradicional. Em contrapartida, bateria, eletrónica de potência e sistemas de alta tensão exigem acompanhamento especializado, com diagnósticos mais sofisticados e oficinas preparadas para trabalhar em segurança.
6. Há risco de choque elétrico ao trabalhar com carros elétricos?
Sim. Por isso, segurança é um tema central na capacitação. Veículos elétricos podem operar em tensões de centenas de volts em corrente contínua, o que exige procedimentos de desenergização controlada, uso de EPIs adequados e respeito integral às normas, como a NR-10 e, agora, à ABNT PR 1025. Profissionais sem formação específica não devem intervir em sistemas de alta tensão.



