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“Proibir nunca funcionou”: CEO da Xpeng critica banimento de combustão na Europa

Por Guga Moraes - Editor Chefe

Markus Schrick, CEO da montadora chinesa na Alemanha, defende liberdade de escolha na transição elétrica e revela estratégia comercial da marca

A montadora chinesa Xpeng registrou crescimento de 1.541% nas vendas alemãs até setembro de 2025, alcançando 1.855 unidades emplacadas, segundo dados do Kraftfahrt-Bundesamt citados pela publicação alemã Edison. Em entrevista à Edison Media, Markus Schrick, CEO da Xpeng Motors Germany desde setembro de 2023, criticou o banimento de veículos a combustão previsto para 2035 na União Europeia e revelou a estratégia da marca no mercado europeu.

Schrick construiu carreira na Audi (onde atuou na Ásia), Toyota e Hyundai antes de assumir a Xpeng. Cresceu em Hong Kong e estudou no Japão, o que lhe deu familiaridade com mercados asiáticos.


“Verbieten hat noch nie funktioniert” — Proibir nunca funcionou

Quando questionado sobre o “Verbrenner-Aus” (fim dos motores a combustão) previsto para 2035, Schrick foi direto:

“Embora eu represente um fabricante de carros elétricos, sou da opinião de que o cliente deve continuar tendo possibilidade de escolha. Devemos abrir as portas na direção desejada, mas não proibir que ele escolha outro caminho: Verbieten hat noch nie funktioniert — proibir nunca funcionou.”

Segundo o executivo, a eletrificação vai se impor “mais cedo ou mais tarde” e é “tarefa dos fabricantes, mas também da política, tornar a transformação atraente, também por meio de incentivos”. Ele considera que a decisão de 2035 foi “um tiro rápido que deve ser razoavelmente corrigido”.

A fala gerou polêmica nos comentários da matéria original, com leitores apontando a contradição de um executivo de montadora chinesa defender liberdade quando a China impõe cotas de eletrificação.


Três perguntas que todo comprador de elétrico faz

Schrick resumiu o que chama de “três USPs-chave” (unique selling points) que definem a decisão de compra:

  • Qual a autonomia do carro?
  • Quão rápido ele carrega?
  • Quanta potência tem?

O executivo destacou o Xpeng G9 Long Range, que oferece até 585 km de autonomia e carrega de 20% a 80% em 10 minutos. “Isso não está mais tão distante do tempo necessário para abastecer um carro a combustão. E isso é uma performance realmente boa”, afirmou.

A Xpeng oferece sete anos de garantia para o veículo e oito anos para a bateria, além de equipamento completo e atualizações over-the-air regulares.

“Estamos convencidos na Xpeng de que o nível de tecnologia nos veículos será o game changer para a mobilidade do futuro”, disse Schrick, explicando que a empresa investe em pesquisa intensiva e fabrica quase tudo internamente para oferecer tecnologia a preços atraentes.


Frotas corporativas dominam mercado alemão de elétricos

Mais de 66% dos carros elétricos emplacados na Alemanha são registrados por empresas, impulsionados por incentivos fiscais. A legislação alemã prevê:

  • Carros elétricos permanecem isentos de Kfz-Steuer (imposto veicular) até pelo menos 2035, com limite elevado de 75.000 para 100.000 euros
  • Empresas podem depreciar 75% do valor de investimento no primeiro ano
  • Funcionários que usam elétricos da frota pagam apenas 0,25% do preço de lista como benefício tributável

“Não é surpresa que carros elétricos estejam em alta entre clientes corporativos”, comentou Schrick.

A Xpeng mantém participação de frotas entre 30% e 40%. “Comparado a outros fabricantes, ainda é relativamente pequeno. Nossos carros elétricos vão principalmente para clientes privados”, explicou. “Com uma marca tão nova como a Xpeng, que valoriza qualidade, sustentabilidade e desenvolvimento de longo prazo, ações de push nos prejudicariam no médio e longo prazo.”


Produção na Áustria elimina tarifas europeias

Para contornar as tarifas de 21% impostas pela União Europeia, a Xpeng passou a fabricar os modelos G6 e G9 na Magna, na Áustria.

“Antes, nossa margem de lucro era muito apertada. Mesmo assim, trouxemos os veículos do ano-modelo 2025 ao mercado quase sem aumento de preço comparado ao predecessor. Tivemos que subsidiar isso um pouco”, revelou Schrick.

Quanto aos preços de leasing mencionados na entrevista (versão básica por 435 euros mensais, versão top por 560 euros), Schrick justificou: “Somos uma empresa de capital aberto, temos que divulgar todos os números a cada trimestre. Qualquer um pode ver a que custos produzimos os veículos.”


Gestão local com autonomia decisória

O executivo destacou diferenças culturais entre empresas chinesas e alemãs:

“Com certeza é a velocidade com que os temas são implementados na empresa. Fala-se sempre de China-Speed. Mas velocidade sozinha não é fator de sucesso. E a Xpeng é um pouco diferente de outras montadoras chinesas.”

Segundo Schrick, a filosofia da Xpeng é: “Os mercados conduzem o negócio e a gestão local decide. Somos responsáveis pelo nosso negócio na Alemanha, definimos as estratégias. Alinhamos com a central, naturalmente, mas somos responsáveis pela execução. Isso não é vivido apenas na Alemanha, mas em todos os mercados no exterior.”


Experiência pessoal: “Estou extremamente entusiasmado”

Schrick admitiu que só conheceu carros elétricos a fundo ao assumir a Xpeng:

“As primeiras experiências intensivas com carros elétricos fiz de fato apenas na Xpeng. Já tinha sentado em um ou outro antes, mas realmente me aprofundei na tecnologia apenas nos últimos dois anos. E devo dizer: estou extremamente entusiasmado.”

Ele usa um G9 e carrega quase exclusivamente em estações públicas de recarga rápida, embora pretenda instalar wallbox em casa após mudança recente.

Sobre como convencer gestores de frotas, foi direto: “O mais importante é trazer as pessoas fisicamente ao carro, deixá-las dirigir um elétrico. Não apenas rapidamente, mas por mais tempo. Oferecemos imediatamente um ou dois carros para empresas interessadas, para que seus funcionários possam coletar experiências por alguns dias.”


Previsão para 2035? “Está nas estrelas”

Quando questionado sobre a participação de elétricos nas vendas em 2035, Schrick foi cauteloso:

“É difícil dizer. O desenvolvimento da transição de propulsão depende de muitos fatores. Não apenas dos produtos, mas também da política. É preciso clareza, sobretudo quanto às condições estruturais, desenvolvimento da infraestrutura de recarga e preços de eletricidade, também confiabilidade no que diz respeito a medidas de fomento. Mas como o mercado de carros elétricos vai se desenvolver até 2035 está nas estrelas. Deixo a previsão de bom grado para outros.”


Enfim

A entrevista de Markus Schrick revela uma estratégia clara da Xpeng: crescer com tecnologia competitiva, preços acessíveis, produção local e autonomia de gestão. Mas também levanta questões sobre os limites da regulação estatal na transição energética.

A crítica ao banimento de 2035 vinda de um executivo de montadora 100% elétrica mostra que o debate europeu está longe de consenso — mesmo entre quem deveria se beneficiar da medida.

Fonte: Entrevista com Markus Schrick, CEO da XPENG Germany — Edison Media (publicado em 30 de outubro de 2025). Disponível em: edison.media/unternehmen/verbieten-hat-noch-nie-funktioniert

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Jornalista e criador da Carango Elétrico, Julio 'Guga' Moraes vive entre motores, dados e boas ideias — explorando como a tecnologia está redefinindo o jeito de se mover pelo mundo.