Grupo que prometeu 30 bilhões de euros em eletrificação traz Francesco Ciancia, especialista em vans elétricas da Mercedes-Benz
A Stellantis anunciou a contratação de Francesco Ciancia, que vinha da Mercedes-Benz, para o cargo de diretor global de manufatura a partir de 1º de novembro. Ciancia era diretor da Mercedes-Benz Vans Operations em Stuttgart desde 2022, onde foi responsável pelo início da transformação da rede de produção, coordenando a eletrificação das vans comerciais da marca alemã: eCitan, eVito e eSprinter.
A movimentação acontece quatro anos depois que a Stellantis anunciou mais de 30 bilhões de euros em investimentos em eletrificação até 2025, com quatro novas plataformas elétricas e o compromisso de eletrificar suas 14 marcas globais. A eletrificação nos Estados Unidos — mercado crucial para o grupo — tem se mostrado lenta e inconsistente, com veículos que ainda custam caro demais para conquistar volume significativo.
A missão oficial de Ciancia será “levar a novos patamares a consistência, eficiência e competitividade dos processos de produção ao nível mundial”.

As quatro plataformas elétricas
A Stellantis desenvolveu quatro plataformas elétricas:
- STLA Small: até 500 km de autonomia
- STLA Medium: até 700 km de autonomia
- STLA Large: até 800 km de autonomia
- STLA Frame: até 800 km de autonomia (para picapes e SUVs grandes)
O objetivo da Stellantis é que, até 2030, 70% das vendas na Europa e mais de 40% nos Estados Unidos sejam de veículos de baixas emissões. Como parte desse esforço, a empresa já investiu mais de US$ 406 milhões em três unidades de Michigan dedicadas à produção de tecnologias elétricas.
Análise: A distância entre o anúncio das plataformas e sua implementação em escala comercial sugere que a Stellantis enfrenta desafios na transição da promessa para a produção em massa. A contratação de um especialista em manufatura de veículos elétricos indica que a empresa reconhece a necessidade de expertise específica nessa área.
E o Brasil?
Carlos Tavares, ex-CEO da Stellantis, confirmou planos para produzir um veículo elétrico no Brasil, com previsão inicial para 2026-2027, mas admitiu que o prazo pode se estender até 2030.
A primeira aposta concreta é o Leapmotor C10, que chega em 2025 com sistema REEV (Range Extended Electric Vehicle), que usa um motor a combustão como gerador, permitindo mais de 950 km de autonomia total. Não é um veículo 100% elétrico.
A Stellantis afirma que implementará as quatro plataformas globais no Brasil, com tecnologias Bio-Hybrid, mais de 40 modelos e oito novos powertrains com eletrificação.
Análise: A escolha do sistema REEV para o primeiro modelo pode ser interpretada como uma estratégia de mitigação de risco para um mercado com infraestrutura de recarga ainda limitada. A janela de três anos (2027-2030) para a produção local de elétricos reflete incertezas sobre o ritmo de desenvolvimento do mercado brasileiro e a maturação da infraestrutura necessária.
O contexto da Mercedes-Benz
Enquanto a Stellantis busca experiência em eletrificação, a própria Mercedes-Benz revisou suas metas. A montadora alemã adiou seu objetivo de que 50% das vendas sejam de elétricos e híbridos plug-in de 2025 para a segunda metade da década.
Análise: A revisão das metas pela Mercedes-Benz é um indicador de que até marcas premium estão recalibrando expectativas diante da realidade do mercado global de veículos elétricos, que tem apresentado crescimento mais lento do que as projeções iniciais de diversos fabricantes.
O perfil de Ciancia
Francesco Ciancia tem mais de duas décadas de experiência no setor automotivo. Começou em 2001 na Fiat Chrysler Automobiles, foi gestor da fábrica de Kragujevac na Sérvia, diretor de manufatura na América Latina e diretor de manufatura da Maserati e Marcas Premium para Europa, Médio Oriente e África. Chegou à Mercedes em outubro de 2022.
O desafio
A Stellantis investiu mais de US$ 406 milhões em três instalações em Michigan para eletrificação. Ciancia terá pela frente a tarefa de escalar a produção de veículos elétricos globalmente, com 14 marcas diferentes, em mercados com níveis de maturidade distintos (Europa, EUA, China, Brasil).
Análise: A experiência de Ciancia na eletrificação de vans comerciais é específica e relevante, mas o desafio de escalar isso para um portfólio global de marcas de passeio e comerciais apresenta complexidades diferentes. O sucesso dependerá não apenas de eficiência fabril, mas também de como a demanda por veículos elétricos se desenvolverá em cada mercado nos próximos anos.
Para o Brasil, a expectativa realista é de pelo menos três anos até ver um elétrico sendo produzido localmente pela Stellantis. Enquanto isso, o mercado continuará sendo abastecido por importados de alto custo e pela estratégia híbrida do Leapmotor.
Ciancia assume em novembro de 2025.



