Carango ElétricoCarango Elétrico

Falta de Mecânicos Especializados em Carros Elétricos Dispara no Brasil

Por Equipe CarangoEV - Redação

Com vendas de eletrificados crescendo 65% em 2025, país enfrenta apagão de profissionais qualificados e salários chegam a R$ 12 mil

Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) acaba de detalhar a Prática Recomendada ABNT PR 1025, primeira norma brasileira focada em competências, segurança e qualificação para quem faz manutenção de veículos elétricos e híbridos. O texto será apresentado na COP30, em Belém, e estabelece uma espécie de “piso técnico” para trabalhar com sistemas de alta tensão na reparação automotiva.

A chegada dessa norma coincide com um ponto de tensão no mercado: oficinas, concessionárias e montadoras relatam dificuldade crescente para contratar mecânicos preparados para lidar com carros elétricos, ao mesmo tempo em que os salários para especialistas em alta tensão e diagnóstico de baterias podem chegar à casa dos R$ 12 mil mensais.

Segundo dados da ABVE citados em estudo da Qi Mercado, o Brasil vendeu 48.500 veículos elétricos a bateria (BEV) e híbridos plug-in (PHEV) entre janeiro e junho de 2025, um avanço de 65% em relação ao mesmo período de 2024. A frota eletrificada já havia ultrapassado 300 mil veículos em circulação em 2024 e, mantido o ritmo atual, a projeção é de mais de 220 mil eletrificados emplacados apenas em 2025.

O resultado é um descompasso evidente: a eletrificação corre em ritmo acelerado, enquanto a formação de mão de obra caminha em ritmo bem mais lento.


ABNT PR 1025: a norma que reorganiza o jogo

ABNT PR 1025 – Veículo propelido a eletricidade – Competências de pessoal define, pela primeira vez no país, critérios mínimos de experiência e formação para profissionais que atuam na manutenção de veículos elétricos e híbridos. 

Pelo texto, obtido com exclusividade por veículos de imprensa especializados, valem as seguintes regras de experiência:

  • Até o 5.º ano do Ensino Fundamental:
    • 4 anos de atuação como ajudante ou
    • 2 anos como mecânico automotivo, antes de poder trabalhar com veículos elétricos.
  • Com curso profissionalizante em elétrica ou eletrónica:
    • 1 ano de experiência comprovada na área passa a ser suficiente para atuar com alta tensão automotiva.
  • Com curso técnico ou ensino superior:
    • o profissional precisa ter 1 ano de experiência como mecânico de tração elétrica (alta tensão e baterias automotivas) para ser enquadrado nos níveis de competência da norma.

A PR 1025 não é lei, mas normas ABNT costumam ser adotadas voluntariamente por redes de concessionárias, oficinas estruturadas e seguradoras como referência de qualidade, segurança e padronização de processos.

O presidente da ABNT, Mário William Esper, e o Instituto da Qualidade Automotiva (IQA) destacam que o texto é um marco para alinhar o Brasil às melhores práticas internacionais em mobilidade elétrica, especialmente porque o reparo de veículos eletrificados envolve tensões que podem chegar a 800 V em corrente contínua, com riscos reais de choque, arco elétrico e incêndio em caso de procedimentos inadequados. 


Escassez em números: 90% das empresas sem mão de obra suficiente

A sensação de “apagão” de mecânicos não é apenas anedótica. Ela aparece com força em pesquisas recentes:

  • No panorama nacional, 90,4% das empresas entrevistadas em estudo sobre mobilidade elétrica declaram falta de profissionais qualificados para atuar com veículos elétricos e híbridos.
  • No recorte do Nordeste89,3% das empresas relatam carência de profissionais, com impactos diretos no dia a dia das operações.
  • 46,2% das empresas nordestinas já enfrentam acúmulo de serviços por falta de gente para executar a manutenção.
  • 30,8% relatam prejuízos financeiros diretos, com clientes esperando mais, serviços represados e oportunidades perdidas.
  • 45,2% das empresas planejam contratar até 10 profissionais especializados em manutenção de veículos elétricos e híbridos até 2025, em grande parte para atuar em segurança em alta tensão e manutenção de baterias.

Ou seja: a demanda existe, está mapeada e tem horizonte de expansão, mas o funil de profissionais prontos para ocupar essas vagas ainda é estreito.

Ao mesmo tempo, o mercado de eletrificados continua acelerando. Entre janeiro e setembro de 2025, o Brasil emplacou 147.602 veículos leves eletrificados, alta de 20,4% em relação a 2024, com participação de 9,3% nas vendas de veículos leves no mês de setembro. 


Salários em alta: por que falar em R$ 12 mil não é exagero

Na prática, a combinação de frota em expansão com poucos especialistas em alta tensão está empurrando os salários para cima. Levantamentos com oficinas especializadas e redes de concessionárias indicam faixas como:

  • Mecânico em transição (vindo da combustão): R$ 3.000 a R$ 5.000 por mês;
  • Técnico eletromecânico júnior/pleno focado em veículos eletrificados: R$ 4.500 a R$ 8.000;
  • Especialista sênior em alta tensão, baterias e diagnóstico avançado em concessionárias ou montadoras: entre R$ 8.000 e R$ 12.000+, especialmente em grandes capitais.

As melhores oportunidades hoje se concentram em:

  • Concessionárias de marcas com forte aposta em eletrificação, incluindo grupos com linhas BEV e PHEV robustas;
  • Oficinas independentes especializadas em elétricos e híbridos, em regiões metropolitanas;
  • Montadoras e fabricantes instalados no Brasil, como BYD e GWM, com estruturas próprias de treinamento;
  • Operadores de frota, especialmente empresas de logística e sistemas de transporte público que já operam ônibus elétricos e precisam de equipes internas para manutenção contínua.

É um mercado em que quem domina alta tensão, baterias e eletrónica embarcada tende a ganhar bem acima da média da mecânica tradicional.


O que faz, afinal, um mecânico de veículos elétricos?

Apesar do nome, o trabalho é muito menos “graxa” e muito mais eletrónica, software e gestão de energia. Em vez de abrir motor a combustão, o mecânico de veículos elétricos passa a se concentrar em:

  • Sistemas de alta tensão: conjunto motor-inversor, cablagens laranja, módulos de potência;
  • Baterias de tração: leitura de parâmetros via BMS (Battery Management System), balanceamento de células e diagnóstico de falhas;
  • Regeneração de energia: atuação em problemas de frenagem regenerativa e integração com sistemas de segurança (ABS, ESC etc.);
  • Eletrónica embarcada e Rede CAN: interpretação de sinais, análise de falhas intermitentes e atualização de softwares de módulos.

O trabalho começa pelo diagnóstico, que hoje é fortemente digital: scanners, softwares proprietários das montadoras e ferramentas de telemetria são tão importantes quanto o multímetro.

Além disso, esse profissional precisa dominar procedimentos de segurança específicos, como:

  • Desenergizar o sistema de alta tensão antes da intervenção;
  • Utilizar EPIs certificados (luvas, botas, óculos, ferramentas isoladas);
  • Seguir normas como a NR-10, que estabelece requisitos para trabalho em instalações e serviços com eletricidade.

Especialistas entrevistados por instituições de ensino com foco em eletromobilidade costumam comparar o momento atual com o início dos anos 1990, quando a mecânica precisou se reinventar com a chegada da injeção eletrónica: quem se atualizou prosperou, quem não correu atrás ficou para trás.


Capacitação: SENAI puxa a fila, mas a demanda ainda é maior que a oferta

Do ponto de vista de formação, o SENAI virou protagonista na criação de uma trilha estruturada para eletromobilidade em vários estados do país.

Em Santa Catarina, por exemplo, a programação montada em parceria com a indústria prevê quatro níveis de capacitaçãoFIESC

  • F0 – Introdução à segurança em veículos elétricos:
    • Carga horária curta (cerca de 4 horas), voltada a quem atua de forma periférica, como vendedores, recepcionistas e lavadores.
  • F1 – Instrução em veículos eletrificados:
    • Curso de base em segurança e conceitos gerais, pré-requisito para níveis mais avançados.
  • F2 – Técnicas de manutenção em sistemas desenergizados:
    • Carga horária ampliada, com prática em veículos com alta tensão desligada.
  • F3 – Técnicas de manutenção em sistemas energizados:
    • Foco em procedimentos com o sistema sob tensão, com ênfase em protocolos de segurança.

No Rio de Janeiro, a Firjan SENAI estruturou centros de treinamento para veículos eletrificados em unidades como Jacarepaguá e Resende, com oficinas dedicadas, equipamentos específicos e certificação internacional em parceria com a TÜV Rheinland, da Alemanha.

No Rio Grande do Norte, o SENAI-RN criou um pacote de cursos que vai de “Princípios do Veículo Elétrico” a formações mais extensas, como “Trabalho Seguro em Veículos Elétricos com Alta Tensão” e “Convertedor e Mantenedor de Veículos Elétricos”, com cargas horárias entre 20 e 160 horas.

Esses programas fazem parte de uma cooperação mais ampla com instituições alemãs e centros de pesquisa, como o CTGAS-ER e institutos federais de Minas Gerais e Santa Catarina, reforçando a troca de conhecimento em conversão de veículos, segurança em alta tensão e práticas de laboratório.

Mesmo assim, as próprias pesquisas do SENAI apontam que o interesse por especialização ainda é tímido frente à demanda projetada.

Mecânicos: Treinamento da equipe de instrutores do CTGAS-ER, do SENAI
Treinamento da equipe de instrutores do CTGAS-ER, do SENAI

Muito além das concessionárias: onde estão as oportunidades?

A boa notícia é que mecânicos de veículos a combustão não precisam recomeçar do zero. A experiência acumulada em sistemas de suspensão, travagem, direção e diagnóstico de falhas mecânicas continua válida. O que muda é o “coração” do carro: sai o motor a combustão, entra o powertrain elétrico.

O caminho natural envolve:

  • Fazer cursos de especialização em elétrica automotiva e veículos eletrificados (de curta ou média duração);
  • Atualizar o ferramental, incluindo equipamentos específicos para alta tensão e scanners compatíveis com sistemas BEV/PHEV;
  • Adotar rotinas rigorosas de segurança e procedimentos padronizados.

Estudos recentes destacam que as empresas não reclamam apenas da falta de profissionais “formados”, mas também da baixa procura por especializações em eletromobilidade, o que abre uma janela de oportunidade para quem se antecipar.

Quem se capacita hoje encontra caminhos como:

  • Ingressar em concessionárias ou montadoras que já estruturaram operações de elétricos e híbridos;
  • Atuar em oficinas independentes especializadas em eletrificados;
  • Montar o próprio negócio focado em diagnóstico, manutenção de baterias ou retrofit (conversão de combustão para elétrico), especialmente à medida que veículos usados saírem da garantia e migrarem para a rede independente.

Desafios técnicos e regulatórios da manutenção eletrificada

Do lado das oficinas, não basta apenas ampliar a agenda de cursos. Há desafios estruturais importantes:

  • Acesso a dados técnicos e softwares de diagnóstico:
    Pesquisas mostram que mais de 80% das oficinas independentes veem o acesso a dados de reparo como principal entrave para a competitividade, à frente até de temas como contratação de técnicos e inflação.
  • Monopólio de informação das montadoras:
    No Brasil, o movimento de abertura de dados de reparação para o mercado independente ainda é incipiente, com forte dependência de redes autorizadas e softwares proprietários. Há discussões em curso na Câmara dos Deputados sobre uma legislação específica para garantir o direito de reparo e acesso a informações técnicas.
  • Investimento em equipamentos:
    Uma oficina para elétricos se parece, por fora, com qualquer oficina moderna, mas exige itens adicionais: ferramentas isoladas para alta tensão, sistemas de elevação adequados para packs de bateria, EPI específicos, estações de diagnóstico avançado, entre outros.

Esses fatores explicam por que a manutenção de veículos elétricos ainda está fortemente concentrada nas redes de concessionárias, prolongando o período em que o consumidor fica “preso” ao serviço autorizado.


Apagão de mão de obra ou janela de oportunidade?

O avanço da eletromobilidade no Brasil mudou a equação da manutenção automotiva. De um lado, vendas recordes de eletrificados, participação acima de 9% em alguns meses e projeções robustas até 2030. De outro, mais de 90% das empresas relatando dificuldade para encontrar profissionais especializados, com oficinas acumulando serviço e, em muitos casos, perdendo receita por falta de gente.

Nesse contexto, a ABNT PR 1025 surge como um marco: define padrões mínimos de experiência, cria uma referência nacional de competências e dá lastro para programas de treinamento em larga escala. Ao mesmo tempo, SENAI, Firjan e parceiros internacionais montam centros de treinamento e cursos específicos para alta tensão, baterias e conversão de veículos.

Para quem já é mecânico, a migração para veículos elétricos é uma evolução natural da carreira, semelhante ao salto da era do carburador para a injeção eletrónica: quem se atualiza amplia o leque de oportunidades e tende a ganhar mais. Para quem está começando, trata-se de entrar cedo em um nicho que junta alta demanda, bons salários e perspectiva de crescimento por muitos anos.


Carango Responde!

1. Quanto ganha um mecânico de carros elétricos no Brasil?
Os salários variam conforme a especialização, a região e o tipo de empresa. Em geral, as faixas vão de R$ 3.500 a R$ 5.000 para profissionais em transição, chegando a R$ 8.000 a R$ 12.000 ou mais para especialistas em alta tensão e diagnóstico avançado em concessionárias de marcas premium, montadoras e grandes centros urbanos. 

2. Preciso de curso superior para trabalhar com manutenção de carros elétricos?
Não obrigatoriamente. A ABNT PR 1025 prevê trilhas diferentes: quem tem formação técnica ou superior na área elétrica/electrónica precisa de um ano de experiência em tração elétrica; já profissionais com menor escolaridade podem se enquadrar com dois anos como mecânico automotivo ou quatro anos como ajudante, desde que recebam a capacitação adequada em segurança e alta tensão.

3. Quanto tempo leva para se capacitar na área?
Depende do ponto de partida. Mecânicos que já atuam com veículos a combustão podem fazer cursos de especialização em alguns meses, focando em alta tensão, baterias e eletrónica. Cursos técnicos completos levam em geral de 1 a 2 anos, enquanto graduações em engenharia e pós-graduações em veículos elétricos e híbridos podem levar 3 anos ou mais.

4. Onde posso fazer cursos de capacitação para veículos elétricos?
SENAI oferece cursos em diversos estados, com centros de treinamento em Santa Catarina, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte e Espírito Santo, entre outros. Além disso, há instituições privadas e centros tecnológicos especializados em eletrónica veicular e eletromobilidade. Vale pesquisar também por cursos de extensão em universidades e pós-graduações específicas em veículos elétricos e híbridos.

5. Carros elétricos exigem muita manutenção?
De forma geral, veículos elétricos têm menos componentes móveis do que os modelos a combustão e tendem a exigir menos manutenção em itens como motor, transmissão e sistema de escapamento — simplesmente porque eles não existem no formato tradicional. Em contrapartida, bateria, eletrónica de potência e sistemas de alta tensão exigem acompanhamento especializado, com diagnósticos mais sofisticados e oficinas preparadas para trabalhar em segurança.

6. Há risco de choque elétrico ao trabalhar com carros elétricos?
Sim. Por isso, segurança é um tema central na capacitação. Veículos elétricos podem operar em tensões de centenas de volts em corrente contínua, o que exige procedimentos de desenergização controlada, uso de EPIs adequados e respeito integral às normas, como a NR-10 e, agora, à ABNT PR 1025. Profissionais sem formação específica não devem intervir em sistemas de alta tensão.


Compartilhar este artigo
Carango Elétrico!
Redação
A Equipe Carango Elétrico é formada por apaixonados por mobilidade eléctrica. Trazemos conteúdo confiável e acessível sobre novidades, tendências e bastidores do mercado de veículos no Brasil e no mundo.