Enquanto cidades como São Paulo, Bogotá e Santiago assumem a dianteira, a BYD e demais fabricantes chinesas dominam o setor de ônibus elétricos.
- Uma revolução silenciosa nas ruas latino-americanas
- Chile, Colômbia e Brasil lideram a revolução elétrica
- Destaques regionais: México, Colômbia e Chile
- Chile alcança pioneirismo histórico
- Domínio chinês e ascensão da indústria local
- Impacto ambiental comprovado
- Financiamento público impulsiona o mercado
- Desafios pela frente
- Perspectivas para o futuro
A América Latina está se consolidando como uma das regiões de crescimento mais rápido na mobilidade elétrica urbana global. Segundo informações divulgadas pela parceria ZEBRA Alliance (Zero Emission Bus Rapid-deployment Accelerator) em outubro de 2025, a região tem demonstrado avanço significativo, com a frota crescendo substancialmente nos últimos anos.
Uma revolução silenciosa nas ruas latino-americanas
Criada pela C40 Cities, rede global de grandes metrópoles comprometidas com ações climáticas, e pelo ICCT (International Council on Clean Transportation), a ZEBRA Alliance atua como plataforma técnica e financeira para acelerar a adoção de ônibus zero emissão. O programa conecta governos, operadores, fabricantes e bancos de fomento, apoiando licitações e projetos-piloto em cidades da América Latina e África.
Os dados mais recentes confirmados oficialmente mostram um salto expressivo no número de veículos elétricos. Segundo o relatório “Monitoramento do mercado de ônibus elétricos na América Latina (2024)“, publicado pelo ICCT Brasil em maio de 2025, a região encerrou 2024 com 6.055 ônibus elétricos em operação — um crescimento de 13% em relação ao ano anterior.
A transformação é ainda mais impressionante quando comparada a 2017, quando a frota era de apenas 801 veículos, praticamente todos trólebus. “A frota cresceu substancialmente desde 2017, com uma taxa média de crescimento de 33,5% ao ano“, destaca o relatório do ICCT Brasil. O crescimento foi inicialmente impulsionado pela introdução de ônibus elétricos a bateria no Chile e na Colômbia, seguidos por Brasil e México.
Chile, Colômbia e Brasil lideram a revolução elétrica
A concentração da frota ainda é uma característica marcante do mercado latino-americano. Santiago do Chile e Bogotá, na Colômbia, respondem por mais de 65% de todos os ônibus elétricos em operação na região, segundo dados do ICCT Brasil.
No ranking por países divulgado pela plataforma E-Bus Radar, mantida pela parceria ZEBRA, o Chile lidera com a maior frota, seguido pela Colômbia. O Brasil ocupa a terceira posição, com mais de mil ônibus elétricos em circulação no transporte coletivo, segundo informações de meados de 2025.
São Paulo amplia frota elétrica
A capital paulista continua avançando na eletrificação do transporte público. Segundo dados oficiais do ICCT Brasil, a cidade contava com 460 ônibus elétricos ao final de 2024. Durante 2025, novas entregas foram realizadas, embora os totais divulgados variem conforme a fonte e o momento do levantamento.
Com mais de 13 mil ônibus circulando diariamente e transportando cerca de 2,5 milhões de passageiros, São Paulo possui a maior frota do país e tornou-se referência na transição para a mobilidade elétrica, graças à Lei de Mudanças Climáticas (Lei nº 16.802) que proibiu a compra de novos ônibus a diesel desde outubro de 2022.

Destaques regionais: México, Colômbia e Chile
Informações divulgadas pela parceria ZEBRA em outubro de 2025 destacam o México, que registrou forte crescimento em sua frota elétrica, impulsionado por metas estaduais em Monterrey, Guadalajara e Cidade do México. A fabricante chinesa Yutong tem planos e investimentos para estabelecer montagem e produção local no país.
A Colômbia, por sua vez, tem demonstrado forte compromisso com a eletrificação através de sua Estratégia Nacional de Mobilidade Elétrica, com diversos projetos de eletrificação em andamento no país.
Chile alcança pioneirismo histórico
Um dos destaques do relatório é o caso de Copiapó, no Chile, que se tornou a primeira cidade da América do Sul com transporte público 100% elétrico. A cidade inaugurou uma rede de 121 ônibus elétricos King Long, que atende 12 itinerários e cerca de 25 mil passageiros por dia. O sistema inclui bilhetagem eletrônica, monitoramento digital em tempo real e, como política de inclusão, obrigatoriedade de contratação de mulheres como motoristas.
Domínio chinês e ascensão da indústria local
Entre 2018 e 2024, a chinesa BYD consolidou-se como a maior fornecedora de ônibus elétricos para a América Latina, com 2.606 unidades vendidas — o equivalente a 43,7% da frota regional. Seus principais mercados foram Colômbia e Chile.
Em segundo lugar ficou a Foton, também chinesa, com 1.404 veículos, quase todos destinados ao Chile. A Yutong ocupou a terceira posição, com 890 ônibus vendidos principalmente no México e Chile.
Fabricantes chineses dominam o cenário, respondendo por 85% da frota (5.147 unidades). Porém, os produtores latino-americanos começam a ganhar espaço: a brasileira Eletra destacou-se como a principal fabricante local, com 477 BEBs e trólebus comercializados, enquanto Marcopolo (Brasil) e DINA (México) somam outros 68 veículos, totalizando 545 unidades — 9% do mercado regional.
Impacto ambiental comprovado
Os números ambientais impressionam tanto quanto os comerciais. Ônibus a combustão interna emitem, em média, o dobro de gases de efeito estufa em comparação com trólebus e três a quatro vezes mais do que ônibus elétricos a bateria ao longo de seu ciclo de vida.
No entanto, as emissões variam conforme a matriz energética de cada país. Ônibus elétricos operando no México e Chile emitem entre 1,2 e 2 vezes mais do que modelos equivalentes na Colômbia ou Brasil, devido à maior dependência de fontes fósseis na geração de energia.
Considerando o tamanho de ônibus mais comum na América Latina (12 a 15 metros), veículos elétricos na Colômbia e no Brasil emitem 78,3% e 77,2% menos gases de efeito estufa do que os movidos a diesel, respectivamente. A redução de emissões acumuladas desde 2017 já evitou quase 7 milhões de toneladas de CO₂.
Financiamento público impulsiona o mercado
No Brasil, investimentos governamentais têm sido fundamentais para impulsionar a eletrificação das frotas de transporte público. O governo federal destinou recursos através de programas como o Novo PAC (Programa de Aceleração do Desenvolvimento) e o Fundo Clima, operado pelo BNDES, para apoiar a renovação de frotas municipais.
Um caso confirmado é Belo Horizonte, que tem previsão de receber 100 veículos elétricos até o fim de 2025, com investimento de R$ 317 milhões via Fundo Clima/BNDES para compra de ônibus e instalação de infraestrutura de recarga. A capital mineira integra o Plano de Mobilidade Limpa, que prevê substituir 40% da frota atual por veículos movidos a energia limpa até 2030.
Segundo Thomas Maltese, gerente sênior da Parceria ZEBRA, cerca de 20 municípios brasileiros aderiram aos ônibus elétricos com o impulso dos programas federais em 2025.
Desafios pela frente
Apesar do crescimento impressionante, especialistas apontam desafios para a consolidação da mobilidade elétrica na região. Os principais obstáculos são os custos de aquisição dos ônibus elétricos e a infraestrutura de recarga, principalmente nos grandes centros urbanos.
“O custo de operação é muito inferior. O investimento se paga em 4 a 5 anos, e os veículos operam por cerca de 15 anos“, afirma Marcel Martin, diretor do ICCT Brasil. Ele garante que a transição não deve impactar o preço das tarifas: “O custo operacional mais baixo permitirá manter os preços atuais“.
Eduardo Siqueira, gerente de projeto da C40 Cities, aponta outra questão: “O mesmo veículo importado da China chega a custar 50% mais no Brasil que em outros países da América Latina“, devido ao cenário tributário nacional.
Perspectivas para o futuro
Um estudo publicado pelo Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento (ITDP Brasil) em agosto de 2025 revela que o Brasil tem potencial para eletrificar cerca de 14 mil ônibus convencionais movidos a diesel nas 21 regiões metropolitanas mais populosas do país no curto e médio prazo, sem necessidade de ampliar as frotas.
A substituição desses veículos mais antigos e poluentes pode evitar a emissão de aproximadamente 440 mil toneladas de CO₂ equivalente por ano, além de representar uma economia entre R$ 54 milhões e R$ 62 milhões anuais com base no Custo Social do Carbono.
Com políticas públicas consistentes, financiamento adequado e o desenvolvimento da indústria local, a América Latina está se posicionando como um mercado relevante de ônibus elétricos — uma transformação que promete ar mais limpo, menos ruído e maior qualidade de vida nas grandes cidades da região.


