País avalia reverter política protecionista imposta há um ano para reabrir mercado chinês para canola e carne suína
O Canadá está considerando eliminar a tarifa de 100% sobre veículos elétricos importados da China, menos de um ano após sua implementação, em uma mudança de estratégia que poderia revolucionar o mercado de EVs na América do Norte e fortalecer os laços comerciais com Pequim.
A reviravolta política
Em outubro de 2024, o governo canadense, então liderado por Justin Trudeau, seguiu os passos dos Estados Unidos e impôs uma tarifa de 100% sobre todos os veículos elétricos e híbridos fabricados na China, além de uma sobretaxa de 25% sobre aço e alumínio chineses. A justificativa oficial era proteger a indústria automotiva doméstica contra o que chamavam de “práticas comerciais desleais” da China.
Agora, sob o comando do primeiro-ministro Mark Carney, o país reavalia essa decisão. O ministro da Agricultura, Heath MacDonald, confirmou em setembro que o governo está analisando a possibilidade de reduzir ou eliminar completamente as tarifas sobre EVs chineses, embora nenhuma decisão final tenha sido tomada.
O acordo em negociação
De acordo com relatos recentes, o Canadá e a China estão discutindo um possível acordo de troca: o Canadá removeria as tarifas sobre EVs chineses em troca da China eliminar suas próprias tarifas sobre produtos agrícolas canadenses, especialmente canola (76% de tarifa sobre sementes e 100% sobre óleo) e carne suína (25%).
O primeiro-ministro Mark Carney confirmou que se reunirá com o presidente Xi Jinping à margem da APEC na Coreia do Sul nesta semana. O encontro deve incluir discussões sobre tarifas, embora nenhum acordo formal tenha sido anunciado.
Pressão dos agricultores
A indústria agrícola canadense tem pressionado intensamente por essa mudança. As exportações de canola de Saskatchewan para a China despencaram 76% em agosto de 2025 comparado ao mesmo mês do ano anterior, caindo para apenas US$ 96 milhões.
O primeiro-ministro de Manitoba, Wab Kinew, tem sido particularmente vocal, afirmando que as tarifas sobre EVs criaram uma “guerra comercial de duas frentes” que prejudica os produtores de canola e carne suína das pradarias. A indústria de canola sustenta 206 mil empregos canadenses e contribui com CAD$ 43,7 bilhões (US$ 31,6 bilhões) para a economia do país.
Apoio popular surpreendente
Uma pesquisa da Nanos Research realizada para a CTV News revelou que 62% dos canadenses apoiam ou apoiam parcialmente a remoção da tarifa de 100% sobre EVs chineses. Os dados mostram:
- 29% apoiam fortemente a remoção
- 33% apoiam parcialmente
Esse apoio significativo contrasta com a posição dos Estados Unidos, que mantém firme sua política protecionista.
Crise no mercado de EVs canadense
O momento da revisão não é coincidência. O mercado de veículos elétricos do Canadá enfrenta uma crise:
- Queda de 39,2% nas vendas de EVs completamente elétricos em base anual
- Suspensão do programa federal iZEV de incentivo à compra de EVs por falta de recursos em 2025 (algumas províncias mantêm programas próprios)
- Escassez de opções acessíveis: poucos EVs custam menos de CAD$ 45 mil no mercado canadense
- Adiamento da meta de que 20% dos veículos novos vendidos em 2026 sejam zero emissões
Analistas argumentam que a entrada de EVs chineses de baixo custo poderia revitalizar o mercado. O BYD Seagull, por exemplo, custa cerca de US$ 13 mil na China antes de tarifas e frete – uma fração dos preços praticados no Canadá.
A questão Tesla
Um dos principais beneficiários imediatos da remoção das tarifas seria a Tesla, que até 2024 exportava Model Y fabricados em sua gigafábrica de Xangai para o Canadá. As importações de automóveis chineses para Vancouver, o maior porto do Canadá, dispararam 460% em 2023, impulsionadas principalmente pelos envios da Tesla.
A Tesla reorganizou suas exportações para o Canadá após as tarifas, com modelos vindos de outras fábricas fora da China. A remoção das barreiras permitiria o retorno dos Model Y e Model 3 mais baratos produzidos em Xangai.
Tensões com os EUA
A possível reversão das tarifas pode criar atrito com os Estados Unidos. O premiê de Ontário, Doug Ford, já manifestou oposição, argumentando que o Canadá deve manter a tarifa de 100% enquanto negocia um novo acordo comercial com os americanos.
A situação se complica ainda mais com o governo Trump, que recentemente interrompeu negociações comerciais com o Canadá após anúncios da província de Ontário criticando tarifas usando declarações do ex-presidente Ronald Reagan.
Implicações para a indústria
A decisão canadense tem implicações profundas:
Pontos positivos:
- Acesso a EVs mais acessíveis para consumidores
- Potencial impulso às metas de eletrificação
- Reabertura do mercado chinês para agricultura
- Possível atração de investimentos chineses em plantas de montagem no Canadá
Pontos negativos:
- Pressão sobre montadoras tradicionais estabelecidas no Canadá
- Possível tensão nas relações com os EUA
- Impacto nos fabricantes de EVs emergentes canadenses
- Dependência de cadeias de suprimento chinesas
Contexto internacional
A decisão canadense contrasta fortemente com a tendência global de endurecimento contra produtos chineses:
- Estados Unidos mantém tarifa de 100% sobre EVs chineses
- União Europeia impôs tarifas de até 35% (além dos 10% existentes)
- México recentemente elevou sua tarifa de 20% para 50%
Se o Canadá prosseguir, será o primeiro grande mercado ocidental a reverter políticas protecionistas contra EVs chineses.
Questões pendentes
Várias questões permanecem sem resposta:
- Como os EUA reagirão diplomaticamente?
- A China realmente removerá todas as tarifas sobre produtos agrícolas?
- Fabricantes chineses como BYD, NIO e XPeng estabelecerão presença no Canadá?
- Qual será o impacto sobre a indústria automotiva tradicional canadense?
Por fim,
A possível eliminação das tarifas sobre EVs chineses representa uma aposta arriscada do Canadá. Por um lado, pode resolver problemas imediatos de agricultores e consumidores, trazendo EVs acessíveis e reabrindo mercados de exportação cruciais. Por outro, pode comprometer a estratégia de longo prazo de desenvolvimento de uma indústria de EVs doméstica robusta e tensionar relações com o principal parceiro comercial do país.
O primeiro-ministro Mark Carney enfrenta uma escolha difícil: carros ou canola? A decisão final, esperada nas próximas semanas, poderá redefinir o papel do Canadá no futuro elétrico da mobilidade.
Matéria em desenvolvimento. Continue acompanhando o Carango Elétrico para atualizações sobre este tema.



